Ei, Você, somos só nós dois aqui. Você não, me desculpe, vou te tratar por Tu. O tu está fora de moda, eu sei, mas acho mais sacana, mais rodriguiano. Mas retomando, somos só nós dois aqui. Tu podes ficar tranqüilo que ninguém vai ficar sabendo. Se essa edição que Tu pegaste tem capa, esconda. Se estiveres de frente pruma tela, cuidado com os bicos aí atrás. Não pega bem descobrirem que estás lendo isso aqui. Além do mais, ninguém pode saber dessa nossa conversa. Tão silenciosa. Sinto até vontade de contar alguma coisa que te afaste da minha voz por um instante, que te afaste para que tu se recobres do choque. Alguma coisa como o ânus da tua vizinha ser um buraquinho peludo.
Tu já recebeste um bilhetinho, palhaçada de adolescente, “se for viado ou puta dê um sorriso”? Claro que já recebeste. Todo mundo já recebeu. Agora, entre nós, podemos sorrir à revelia. Vamos lá, mesmo quem não era viado ou puta se contorcia pra não rir daquilo. Aproveita porque não é com qualquer um que podemos ter tanta liberdade. Comigo Tu podes tudo.
Tanto que aqui Tu és viado. Não importa se mundo afora Tu és isso ou aquilo: aqui Tu és viado. Descobriste isso no início da adolescência, quando bateste punheta pela primeira vez e só conseguiste pensar em macho. Tesão, só em macho. Tu já desconfiavas, é verdade, porque a nudez masculina sempre te despertou interesse exclusivo. E que terrível era ter esse interesse num mundo onde predomina a nudez feminina. Vergonhas à mostra nas bancas de revista e nos programas de auditório, só as vergonhas de mulher. Sortudos são os viadinhos adolescentes de hoje, que com os hormônios à flor da pele têm essa bênção que é a internet.
Mas não quero ficar fazendo flashbacks do teu passado. Tu estás em busca de alguma coisa que te faça querer aproveitar a vida de novo. E vais encontrar.
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